Hotel que subiu preço após anúncio da COP30 ainda não alugou quartos

O Hotel
COP30
, em Belém, que foi alvo de polêmica durante a procura de hospedagens de delegações internacionais para a conferência anual da Organização das Nações Unidas (ONU), ainda não reservou nenhum quarto para o evento.

Os proprietários do hotel pretendem alugar todo o prédio para alguma delegação, porém, os preços exorbitantes impediram que isso acontecesse. Isso porque o hotel aumentou cerca de 80 vezes a diária para o evento, de acordo com dados do O Globo.

Antes da COP30 ser anunciada em Belém, o valor da diária do hotel era R$ 70 por dia. Depois, passou a ser de R$ 5.670.

Preocupação

A pouco mais de dois meses da conferência anual da ONU sobre a mudança climática, o
alto custo da hospedagem
preocupa a organização de um evento que receberá cerca de 50.000 pessoas durante 12 dias na cidade amazônica.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva idealizou a
COP30 em Belém
para dar visibilidade à maior floresta tropical do planeta, fundamental contra o aquecimento global.

Os delegados poderão negociar “sob a copa de uma árvore”, brincou em 2023, quando o Brasil foi anunciado como sede.

Longe do romantismo de Lula, a capital do estado do Pará se deparou primeiro com um
déficit de acomodação
e depois com uma disparada nos preços.

Para aliviar, o Brasil programou a cúpula de chefes de Estado para 6 e 7 de novembro, antes da conferência prevista entre os dias 10 e 21. Mas não foi suficiente.

“Nunca aconteceu”

Vários países sugeriram em julho uma mudança de sede. A ONU pediu ao Brasil que subsidiasse os aluguéis para as delegações.
O governo se recusou
.

Por enquanto, 68 dos 198 países participantes pagaram suas reservas. “Isso nunca aconteceu, normalmente dois ou três meses antes da conferência todos os países já têm acomodação”, diz à AFP Marcio Astrini, secretário-executivo da rede ambientalista Observatório do Clima.

Em uma das coloridas e desgastadas ruazinhas do centro histórico de Belém, o Hotel COP30 oferece vagas para 40 hóspedes. No local, funcionava um motel, até que em 2024 novos proprietários o reformaram e trocaram seu nome.

“É um evento de uma magnitude que Belém nunca esperou e os valores acabaram ficando desordenados, cada um colocou seus valores e alguns fora da realidade”, reconhece o gerente Alcides Moura.

Seu hotel chegou a anunciar tarifas diárias de 6.300 reais. Um “teste de mercado”, segundo Moura, que mostrou limites: hoje os quartos não passam de 350 dólares (1.910 reais).

Para luxo, Dubai

Belém é a capital brasileira com maior porcentagem de população vivendo em favelas, com 57% dos seus 1,4 milhão de habitantes.

Para muitos proprietários, a COP30 representa uma oportunidade única de obter bons lucros.

Ronaldo França, um aposentado de 65 anos, alugará pela primeira vez sua casa de fim de semana nos arredores da cidade, a 25 quilômetros do centro de convenções. Com três quartos de casal e piscina, ele pede 370 dólares (2.019 reais na cotação atual) por noite. Já foi contatado por interessados chineses.

“Eu não vou cobrar um preço absurdo, mas o governo não acompanhou os aluguéis e aí os caras estão explorando muito, esse pessoal está em outro mundo”, diz.

O Brasil lançou em agosto um grupo de trabalho para ajudar os delegados a conseguirem melhores condições.

“A oferta de leitos está garantida”, afirmou à AFP o governador do Pará, Helder Barbalho, embora admita que ainda seja necessário “combater as abusividades”.

Algumas delegações pedem quartos individuais para todos os seus membros.

“Quem quer luxo teve a oportunidade de ir à COP em Dubai, quem quer viver a experiência da Amazônia vai ter a oportunidade de conhecer Belém”, diz Barbalho.

Com infraestrutura limitada, a cidade recebeu mais de 4 bilhões de reais em investimentos para obras públicas devido à COP, entre elas o Parque da Cidade, um gigantesco centro de convenções arborizado onde ocorrerá o evento.

Debate equivocado

As autoridades calculam que 60% dos participantes devem se hospedar em propriedades particulares. Os hotéis estão “quase todos cheios”, segundo Toni Santiago, presidente da associação de hotéis do Pará.

A organização rejeitou um pedido do governo para fixar preços que considerou irrisórios: “Isso não existe em nenhum grande evento no mundo, porque Belém tem que ser a vira-lata da história?”

Para reforçar a oferta, o governo disponibilizou dois navios privados que oferecerão 6.000 camas, embora estejam a 20 quilômetros do evento.

O Airbnb anunciou dias atrás que a média de preços caiu 22% desde fevereiro. Porém, no Airbnb, Booking e na plataforma oficial de hospedagem, é difícil encontrar tarifas diárias próximas a 100 dólares (545 reais na cotação atual), o valor que a ONU exige para delegações de baixo orçamento.

Esta COP pode ser a menos inclusiva da história, alertou o Observatório do Clima, preocupado com a hospedagem para a sociedade civil.

Seu secretário lamenta que os preços tenham ofuscado o que “interessa de verdade” na COP: “metas climáticas, combustíveis fósseis, financiamento climático”.

*Com AFP


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