Carboidratos no jantar não aumentam risco de diabetes, segundo estudos
Arroz, macarrão e pães costumam ser retirados do jantar por quem teme ganhar peso ou desenvolver diabetes. A exclusão desses alimentos à noite está ligada à crença de que o consumo de carboidratos após determinado horário prejudica a saúde metabólica.
Pesquisas científicas, no entanto, mostram que o horário da refeição não é o principal fator de risco. O que realmente influencia os níveis de glicose no sangue é a qualidade e a quantidade dos alimentos ingeridos ao longo do dia.
Segundo a nutricionista Letícia Ramalho, doutora pelo Laboratório de Cronobiologia e Sono da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), as evidências atuais apontam nessa direção.
“Os dados mais consistentes mostram que a regulação da glicose depende muito mais da qualidade e da quantidade da alimentação do que do horário em que ela é consumida”, afirma.
Sensibilidade à insulina é fator decisivo
Um estudo publicado em 2025 na revista científica Nutrients reforça esse entendimento. A pesquisa foi conduzida pela Universidade Aberta da Catalunha, em parceria com instituições dos Estados Unidos.
O trabalho acompanhou 33 adultos diagnosticados com diabetes ou pré-diabetes. Todos seguiram uma dieta padronizada e utilizaram monitor contínuo de glicose ao longo de 24 horas.
Os resultados indicaram que a resposta do organismo aos carboidratos varia conforme a sensibilidade individual à insulina, e não necessariamente pelo horário das refeições.
Para a endocrinologista Cláudia Schimidt, do Hospital Israelita Albert Einstein, o estudo evidencia o papel central da resistência insulínica. “A pesquisa mostra que, quando a insulina não age de forma eficiente, a glicose permanece elevada no sangue”, explica.
O que é resistência à insulina
A insulina é o hormônio responsável por permitir que a glicose entre nas células e seja usada como fonte de energia. Na resistência à insulina, esse processo ocorre de forma inadequada.
Como compensação, o pâncreas passa a produzir mais insulina para tentar manter a glicemia dentro dos valores normais. Com o tempo, esse esforço pode não ser suficiente.
Quando o organismo perde a capacidade de controlar os níveis de açúcar no sangue, aumenta o risco de desenvolvimento do diabetes tipo 2. “O pré-diabetes costuma ser a primeira etapa desse processo”, observa Schimidt.
Como identificar o pré-diabetes
O pré-diabetes é caracterizado por alterações nos níveis de glicose, ainda abaixo do patamar considerado diabetes. A condição é diagnosticada por exames laboratoriais.
A glicemia de jejum indica pré-diabetes quando os valores ficam entre 100 e 125 mg/dl. Outro exame utilizado é a hemoglobina glicada, que avalia a média da glicose no sangue nos últimos três meses.
De acordo com Schimidt, resultados entre 5,7% e 6,4% nesse exame são compatíveis com o pré-diabetes.
Mudanças no estilo de vida podem reverter o quadro
Quando não diagnosticado, o pré-diabetes pode evoluir para o diabetes tipo 2, doença associada a complicações cardiovasculares, renais e oculares.
Por outro lado, a identificação precoce permite a reversão do quadro por meio de mudanças no estilo de vida. Em alguns casos, pode ser necessário ajuste calórico e uso de medicamentos, especialmente quando há sobrepeso ou obesidade.
A redução da gordura abdominal é considerada um dos principais pontos de atenção. Esse tipo de gordura se acumula entre os órgãos e libera substâncias inflamatórias que prejudicam o metabolismo.
Alimentação equilibrada e atividade física
A prática regular de atividade física é uma das estratégias mais eficazes na prevenção do diabetes tipo 2. A alimentação equilibrada atua de forma complementar.
Hortaliças, frutas e sementes devem fazer parte da rotina alimentar. Dietas mais variadas e coloridas oferecem maior diversidade de nutrientes protetores.
Também é recomendado reduzir o consumo de gorduras saturadas, presentes principalmente em carnes vermelhas, laticínios integrais e alimentos como o coco.
Carboidratos certos fazem diferença
A escolha do tipo de carboidrato tem impacto direto no controle glicêmico. A orientação é priorizar fontes ricas em fibras.
“Os carboidratos complexos são os mais indicados”, afirma Letícia Ramalho. Grãos integrais como arroz, aveia e trigo, além de massas e pães integrais, são boas opções.
Tubérculos e raízes, como batata, inhame e mandioca, também podem ser incluídos. As leguminosas, como feijão, lentilha, ervilha e grão-de-bico, têm papel importante na alimentação.
“As fibras auxiliam o funcionamento intestinal e contribuem para o equilíbrio da glicose e de hormônios ligados ao metabolismo energético”, explica a nutricionista.
Quantidade também importa
Mesmo alimentos considerados saudáveis podem causar prejuízos quando consumidos em excesso. O desequilíbrio nas porções compromete os benefícios nutricionais.
O controle glicêmico depende do equilíbrio entre qualidade e quantidade dos alimentos. Esse fator é mais relevante do que o horário da refeição.
Dessa forma, não há necessidade de eliminar carboidratos do jantar. A recomendação é optar por versões integrais, ricas em fibras, e manter atenção às porções consumidas.


