Crescimento modesto: o que o Boletim MacroFiscal revela sobre a indústria em 2025
O
cenário econômico do Brasil
Boletim MacroFiscal
A projeção de crescimento para 2025 foi revista para baixo: caiu de 2,3% para 2,2%, conforme registra o documento. Essa redação reflete, principalmente, expectativas menos otimistas para a expansão do produto interno bruto no terceiro trimestre, movimento que ripple sobre as projeções do trimestre subsequente.
Os números do crédito: contração real já aparece
O crédito começou a sofrer impacto. A Secretaria de Política Econômica registra que as concessões reais de crédito dessazonalizadas apresentaram contração em setembro na comparação trimestral. A redução concentrou-se principalmente nas novas operações direcionadas a empresas.
Essa dinâmica não emerge do acaso. Por trás dela está um fenômeno estrutural: a manutenção da taxa básica de juros em 15% ao ano, combinada com revisões para baixo na expectativa de inflação. Resultado: a taxa de juros real ex-ante atingiu, em outubro de 2025, patamares superiores aos observados no início de 2016, segundo o boletim.
Mercado de trabalho: primeiros sinais de desaquecimento
Ainda que a taxa de desemprego permaneça em nível historicamente baixo, conforme aponta a SPE, há indicadores de enfraquecimento. A população ocupada contraiu no terceiro trimestre em relação ao trimestre anterior. Simultaneamente, o ritmo de expansão dos rendimentos desacelerou.
O Boletim MacroFiscal da SPE observa que essa contração foi parcialmente amortecida por dois fatores: o pagamento de precatórios iniciado em julho e o aumento no ritmo de concessões de crédito consignado ao trabalhador privado nos últimos meses.
Por setor: indústria desacelera, mas agropecuária amplia expectativas
A dinâmica não é homogênea. A projeção para a indústria de transformação caiu marginalmente, passando de 1,4% para 1,3% em 2025. Mas olhar apenas para esse número seria perder nuances importantes.
A agropecuária apresenta movimento inverso. A SPE revisou a projeção para cima, de 8,3% para 9,5%, refletindo novas estimativas de safra e abate. Colheita de soja, produção de carnes, safra de algodão, cana-de-açúcar, café e milho consolidam esse cenário mais robusto.
Há mais: para 2026, a indústria deverá crescer 1,8%, superando os 1,3% esperados para 2025. Esse movimento ascendente acompanha expectativas de que a política monetária se torne menos contracionista ao longo do próximo ano. Em outras palavras, juros devem cair e o mercado de crédito tenha espaço para expandir.
O impacto das tarifas americanas e a resposta governamental
Desde agosto, tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos criaram turbulência real. O boletim registra que as exportações brasileiras para os EUA caíram 24,9% de agosto a outubro em comparação com o mesmo período do ano anterior, queda de aproximadamente US$ 2,5 bilhões.
Os produtos mais afetados foram petróleo bruto (queda de 30,3%), carne bovina congelada (queda de 60,5%), celulose de eucalipto (queda de 33,0%), ferro bruto (queda de 27,8%) e açúcar de cana refinado (queda de 91,6%), conforme detalha o boletim.
Porém, não foi apenas baque. O redirecionamento comercial revelou dinâmica mais complexa. De agosto a outubro, as exportações totais brasileiras cresceram US$ 5,5 bilhões, equivalente a 6,4% em comparação interanual. A Argentina absorveu crescimento de 22% nas importações de origem brasileira, enquanto a China ampliou compras em 25,7%.
O governo federal respondeu com o Plano Brasil Soberano. Até início de novembro de 2025, foram aprovadas 517 operações de crédito totalizando R$ 7,1 bilhões, segundo o documento. Dessas operações, 391 beneficiaram médias, pequenas e microempresas. O montante foi dividido entre R$ 4,0 bilhões para diversificação de mercados e R$ 3,1 bilhões para capital de giro tradicional.
Por setor, a indústria de transformação recebeu R$ 5,9 bilhões, comércio e serviços R$ 0,8 bilhão, agropecuária R$ 0,4 bilhão e indústria extrativista R$ 0,1 bilhão. Recentemente, a Portaria Conjunta MF/MDIC nº 17 foi atualizada, reduzindo de 5% para 1% o percentual mínimo de faturamento vinculado às exportações afetadas pelas tarifas norte-americanas para elegibilidade ao programa.
O que fica para a indústria brasileira
O ambiente é de desaceleração controlada, não de crise. A atividade industrial brasileira, embora em ritmo modesto com projeção de 1,3% para 2025, permanece em trajetória positiva. As perspectivas para 2026 apontam para 1,8% de crescimento, conforme a SPE.
Para 2026, segundo o boletim, a expectativa é de que a política monetária se torne menos contracionista. Isso sinaliza possibilidade de redução na taxa de juros e expansão no crédito para empresas.
Os pequenos e médios industriais enfrentam um cenário onde a demanda doméstica desacelera, mas onde existem alternativas construídas. O Plano Brasil Soberano canaliza recursos para diversificação de mercados. As exportações para América Latina e Ásia ampliaram-se. Produtos agroindustriais seguem em demanda robusta.
O cenário não é próspero, como pontua o Boletim MacroFiscal da SPE. Mas também não é paralisante. Trata-se de economia que se recalibra, ajusta seus ritmos, encontra novos caminhos. Quem acompanha esses sinais com atenção tem informação para navegar esse período de transição.


