Em xeque na ALMG, referendo sobre Copasa está na Constituição de MG há mais 20 anos

Tema de
debate por mais de dez horas e votada em primeiro turno às 4h30 da madrugada desta sexta (24)
, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 24/2023, de autoria do governador Romeu Zema (Novo), tem um texto simples e curto, apenas com a designação “ficam revogados os §§ 15 e 17 do art. 14 da Constituição do Estado”. A medida, no entanto, muda significativamente a vida dos mineiros, pois retira dos eleitores a prerrogativa de decidir se uma estatal pode ou não ser privatizada.

A PEC 24/2023 foi enviada à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) como forma de viabilizar a venda de Cemig e Copasa sem a necessidade de realização de um referendo popular. O texto ganhou força com a criação do
Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag)
e a previsão de privatizar ativos como forma de refinanciar o débito de R$ 170 bilhões com a União e reduzir os juros cobrados sobre as parcelas divididas pelos próximos 30 anos. A versão atual do texto, após tratativas entre os deputados, trata apenas sobre a retirada da consulta popular acerca da venda da Copasa

O texto foi aprovado em primeiro turno e
pode ter a votação definitiva
em plenário já na próxima semana. Durante a extensa votação da noite de quinta-feira (23) que invadiu a madrugada do dia seguinte, vários deputados da oposição recordaram o momento em que outra PEC, a que instituiu o referendo, foi aprovada naquela mesma Assembleia.

A origem do debate sobre o referendo remonta ao início deste século, quando Minas Gerais era governada por Itamar Franco (1930-2011), então no PMBD. O governador sucedeu Eduardo Azeredo (PSDB) e reagia a um momento de avanço da pauta privatista no estado e no Brasil. Em 1997, por exemplo, 33% das ações da Cemig foram vendidas.

Eleito em 1998, Itamar enviou à Assembleia, três anos depois, a PEC 50/2001 em março. O texto tramitou na Casa durante sete meses e foi aprovado por unanimidade em outubro, alterando a Constituição de Minas Gerais para exigir um referendo popular para autorizar a venda de empresas que fornecem serviços de gás natural, energia elétrica e saneamento — primordialmente Gasmig, Cemig e Copasa, portanto.

O trecho específico da PEC de autoria de Itamar Franco que trata sobre Cemig e Copasa foi escrito desta forma:

Como foi a votação em 2001

O Diário Legislativo da ALMG de 20 de outubro de 2001 traz a ata completa da sessão de votação realizada em plenário de três dias antes, quando 51 deputados votaram a favor da PEC do Executivo e nenhum parlamentar se manifestou de forma contrária.

Alencar da Silveira Júnior (PDT), Arlen Santiago (Avante), Hely Tarquínio (PV) e Sargento Rodrigues (PL) são os únicos deputados estaduais que atualmente têm cargo na Assembleia e também estavam na Casa há 24 anos.

Arlen Santiago votou a favor do projeto de Itamar e depois também de forma favorável à proposta de Zema, que anula o primeiro. Sargento Rodrigues votou a favor do texto de 2001 e se ausentou na votação desta sexta. Alencar da Silveira Junior e Hely Tarquinio não votaram em segundo turno na PEC 50/2001 e, em 2025, o primeiro votou a favor da queda do referendo e o segundo, por sua manutenção.

A lista de parlamentares a votar a favor da PEC conta com nomes que seguem relevantes na política. Veja a lista completa:

  • Antônio Andrade
  • Ermano Batista
  • Antônio Carlos Andrada
  • Cristiano Canêdo
  • Sebastião Costa
  • Luiz Fernando Faria
  • Adelmo Carneiro Leão
  • Ivo José
  • Olinto Godinho
  • Wanderley Ávila
  • Álvaro Antônio
  • Aílton Vilela
  • Ambrósio Pinto
  • Amilcar Martins
  • Anderson Adauto
  • Arlen Santiago
  • Bené Guedes
  • Bilac Pinto
  • Cabo Morais
  • Carlos Pimenta
  • Chico Rafael
  • Dalmo Ribeiro Silva
  • Dilzon Melo
  • Dimas Rodrigues
  • Dinis Pinheiro
  • Doutor Viana
  • Durval Ângelo
  • Edson Rezende
  • Eduardo Brandão
  • Eduardo Hermeto
  • Gil Pereira
  • João Leite
  • João Paulo
  • Jorge Eduardo de Oliveira
  • José Braga
  • José Henrique
  • Kemil Kumaira
  • Luiz Menezes
  • Marcelo Gonçalves
  • Márcio Kangussu
  • Marco Régis
  • Maria José Haueisen
  • Mauro Lobo
  • Miguel Martini
  • Paulo Piau
  • Rêmolo Aloise
  • Rogério Correia
  • Sargento Rodrigues
  • Sávio Souza Cruz
  • Sebastião Navarro Vieira

O Diário do Legislativo conta também com a transcrição da declaração de voto de Rogério Correia (PT), hoje deputado federal. O parlamentar defendeu sua escolha a favor da PEC e exaltou o projeto do então governador.

“Senhor Presidente, a Assembleia Legislativa acaba de aprovar um projeto importante. A aprovação dessa emenda à Constituição, praticamente, inibe qualquer ação de governos futuros no que diz respeito à venda de empresas importantes como a Cemig e a Copasa. O povo mineiro fica resguardado da ação de governos que especulam com empresas que nos são muito caras, vendendo-as, a preço de banana, a empresas estrangeiras. Conforme o substitutivo que apresentei, essa emenda à Constituição obriga que, para qualquer venda da Cemig ou da Copasa, seja necessária, em primeiro lugar, a aprovação de três quintos dos Deputados, mesmo número necessário à aprovação de emenda à Constituição, o que dificulta a autorização da venda da Cemig e da Copasa. Mesmo assim, seria necessário um referendo popular para a concretização da venda dessas empresas estatais. É uma salvaguarda que a emenda à Constituição passa a ter. Tomara que outras Assembleias Legislativas procedam da mesma forma, para impedir que esse processo privatizante continue tendo curso em nosso país”, disse à época o deputado.

O que diz a PEC de Zema?

No início do século, durante o governo de Itamar Franco, a Assembleia aprovou por unanimidade a inclusão de um artigo na Constituição de Minas Gerais que obriga a realização de um referendo popular para aprovar a privatização das estatais de gás natural, energia elétrica e saneamento.

A PEC 24/2023 buscava retirar esse artigo e viabilizar a privatização de Cemig e Copasa. Após acordos entre os deputados, o texto foi alterado e manteve apenas a retirada do referendo para a Copasa.

A Copasa no Propag

A privatização da Copasa já integrava a pauta do governo Zema desde o primeiro mandato, mas ganhou novo fôlego com a criação do Propag. Com o projeto permitindo a privatização e federalização de ativos como forma de pagar a dívida com a União, vários projetos da pauta privatista do Executivo andaram na Assembleia após anos parados.

O Propag prevê que estados refinanciem em 30 anos a dívida com a União e estabelece mecanismos para reduzir os juros cobrados sobre as parcelas. O projeto do Executivo Estadual é ingressar no programa abatendo 20% do estoque devido.

Para obter o valor necessário na amortização da dívida, o Executivo enviou projetos para federalizar ou privatizar estatais à Assembleia. No caso da Copasa, além do texto específico que trata sobre a venda da companhia de saneamento, o governo precisa retirar da constituição a necessidade de realizar um referendo para autorização da privatização.

Hoje os juros são indexados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais 4% ao ano. Se o estado conseguir amortizar 20% do estoque da dívida, dois pontos percentuais da cobrança adicional são abatidos.Servidores lotam a Assembleia contra a privatização da Copasa

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